Promoção de saúde e regras nas organizações
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by: pribeir5
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Dentro de uma organização, o adoecimento físico em trabalhadores é facilmente observado, ao contrário do adoecimento psíquico que nem sempre é diagnosticado com tanta facilidade.
Dessa forma, a divulgação clara dos fatores desencadeantes de doenças, atrelados à informação são de suma importância para que se tenha condições de promover a saúde ao invés de se pensar na prevenção.
Recentemente, o foco das organizações na manutenção e melhora de seus colaboradores por meios de práticas saudáveis tem aumentado significativamente, levando a criação e estruturação de programas de promoção de saúde, que podem trazer ganhos como o aumento da produtividade, dos lucros e até mesmo a conquista de novos mercados, sem falar dos ganhos para os colaboradores.
A Organização Mundial de Saúde afirma que saúde é algo além da doença, e consta na definição de saúde da Constituição da Organização Mundial de Saúde de 1948, a definição de promoção da saúde como: “processo de capacitação das pessoas para aumentar seu controle e melhorar a sua saúde. Para atingir um estado de completo bem estar físico, mental e social, um indivíduo ou grupo deve ser capaz de identificar e realizar aspirações, satisfazer necessidades e transformar ou lidar com os ambientes. Saúde é, portanto, vista como um recurso para a vida cotidiana, não o objetivo da vida. Trata-se de um conceito positivo enfatizando recursos sociais e pessoais, assim como capacidades físicas” (OMS, 1986).
Essa definição vai de encontro aos estudos de Basílio e Siqueira (2006), que salientam que a promoção da saúde não pode ser entendida como uma responsabilidade exclusiva do setor da saúde, pois exige estilos de vida saudáveis para atingir o bem-estar.
Pereira et al., 2000, salientam que a expressão “promoção de saúde” foi usada pela primeira vez em 1945 pelo canadense Henry Sigerist, médico historiador que definiu as quatro tarefas essenciais à Medicina como sendo respectivamente a promoção de saúde, a prevenção de doenças, o tratamento dos doentes e a reabilitação.
Segundo o Ministério da Saúde (2001), promoção da saúde é uma forma moderna e eficaz de enfrentar os desafios referentes à saúde e qualidade de vida, introduzindo a noção de responsabilidade civil de gestores, compartilhada com a sociedade organizada.
Utilizou-se também a definição de Ribeiro (1998) de promoção de saúde que compreende que esta consiste em um processo que se dá ao longo do desenvolvimento do ciclo vital do ser humano.
Equilíbrio
O conceito que Ribeiro (1998) apresenta de equilíbrio utiliza-se dos conceitos de homeoresia (seqüências de desenvolvimento através de um fluxo constante) e heterostasia (a adaptação como um processo). Nesse sentido, essa concepção de equilíbrio distingue do conceito proposto por Caplan (1988), que trata desse mesmo processo de equilíbrio/desequilíbrio a partir do conceito de homeostase, compreendendo que a retomada do estado de equilíbrio implica no retorno ao estado anterior a um período de crise. Para Caplan é possível passar por um período de desequilíbrio e retornar ao estado anterior ao desequilíbrio, já para Ribeiro, isso não é possível e, o que ocorre, é que, ao sair do estado de desequilíbrio não se retorna ao estado anterior, mas para um novo estado de equilíbrio, um equilíbrio modificado que teve a interferência daquilo que foi vivenciado durante o estado de desequilíbrio. Ribeiro então apresenta um conceito de um processo contínuo entre estados de equilíbrio e desequilíbrio no qual a cada novo estado de equilíbrio há a influência do que foi aprendido durante o desequilíbrio.
O autor parte da concepção de que, ao longo da vida, os seres humanos passam por um processo de alternação entre estados de equilíbrio e desequilíbrio e que o ser humano saudável é aquele que consegue passar pelos estados de desequilíbrio de forma a sair dele não apenas com restauração do equilíbrio, mas entrando em um estado de equilíbrio novo, mais complexo que o anterior acrescido das experiências vividas durante o estado de desequilíbrio, resultando em uma trajetória de vida e não na retomada de um estado estático. Sendo assim, a ausência de saúde (doença) se dá na dificuldade em restabelecer o equilíbrio (RIBEIRO, 1998).
De acordo com o mesmo teórico, a promoção de saúde não tem como objetivo aumentar os anos de vida de uma pessoa, apesar de que um estilo de vida saudável tende a prolongá-la, mas visa melhorar a qualidade da vida enquanto ela existir, buscando, para isso, uma progressão qualitativa, não quantitativa, para o ciclo vital do ser humano (RIBEIRO, 1998).
Síndrome Geral da Adaptação
Ribeiro também utiliza o conceito proposto por Selye que descreve a Síndrome Geral da Adaptação (SGA) que compreende que a adaptação consiste em uma resposta não específica, mas é resultado do interjogo de três fases “reação de alarme, fase de resistência e fase de esgotamento” (p. 21). A necessidade da adaptação vem em resultado de um estado de desequilíbrio que necessita de uma resposta adaptativa para a retomada do processo de equilibração (SELYE, 1974 apud RIBEIRO, 1998).
Pode-se, portanto, compreender que, para o autor, o conceito de promoção de saúde está intimamente ligado ao conceito de homeoresia e heterostasia. Outro autor, Buss, define que: “[...] partindo de uma concepção mais ampla do processo saúde-doença e de seus determinantes, a promoção de saúde propõe a articulação de saberes técnicos e populares e a mobilização de recursos institucionais e comunitários, públicos e privados para seu enfrentamento e resolução” (BUSS, 2000a apud BUSS in CZERESNIA; FREITAS, 2003).
Essa concepção de promoção de saúde pode ser considerada como similar à concepção de Ribeiro que conceitua promoção de saúde como um conceito multidisciplinar, incluindo “[...] aspetos organizacionais, econômicos, ambientais [...]” (p. 68) e que têm como principal objetivo à adoção de um estilo de vida saudável através de mudanças no estilo de vida (RIBEIRO, 1998).
Mas historicamente a promoção à saúde passou a ter destaque no campo da saúde pública somente a partir da década de 1980, quando seu conceito foi oficialmente introduzido pela OMS (WHO, 1984), e um marco importante foi a Carta de Ottawa que declara que a promoção de saúde consiste “en proporcionar a los pueblos los medios necesarios para mejorar su salud y ejercer un mayor control sobre la misma” (OMS, 1996, p.367).
Regras e linguagem
Em vista desses conceitos, nos questionamos como esse processo de promoção de saúde e adaptação pode ser influenciado pelo contexto organizacional. Longe de tencionar o esgotamento do assunto, buscamos abordar o processo de promoção de saúde frente à transmissão de regras dentro da organização. Faz-se, portanto, necessário compreender que a transmissão de regras ocorre através da linguagem.
Utilizando conceitos descritos por Oliveira (2004), pode-se traçar um paralelo entre jogos de regras e as organizações. Assim como em jogos, cada organização possui regras próprias, tem regras que definem como cada pessoa que dela faz parte deve e não deve agir e essas regras são transmitidas e permeadas pela linguagem. Como regras de uma organização, compreendemos elementos como: horário/turno de trabalho, membros que integram uma determinada equipe, local de trabalho, condições físicas de trabalho, objetivos da organização, dentre outros. A organização, deste ponto de vista, é como um jogo em que há um objetivo final que é viabilizado por regras que tratam sobre como chegar nesse objetivo. A autora cita Damásio para definir a linguagem como uma modalidade de imagem mental (DAMÁSIO, 2000 apud OLIVEIRA, 2004).
Imagens mentais são, segundo Damásio (2000), padrões mentais conscientes e inconscientes com uma “[...] estrutura construída com os sinais provenientes de cada uma das modalidades sensoriais” (p. 402). Em outras palavras, tudo o que nossos órgãos do sentido são capazes de apreender é registrado no cérebro em forma de imagem mental. O autor também descreve que as imagens mentais não são estáticas, mas se formam e se transformam sempre que entramos em contato com o mundo através de nossos sentidos, ou seja, o tempo todo.
A linguagem é uma modalidade de imagem mental, falamos e nos expressamos utilizando as diversas imagens mentais em nosso cérebro e, ao falar e ouvir formamos novas imagens mentais, modificando as já existentes. De acordo com Oliveira (2004), a linguagem no processo de desenvolvimento está relacionada na conversão de dados da realidade em termos lingüísticos, sendo que, quanto mais estruturado for o sujeito, maior a tendência para que isso ocorra.
Nesse paralelo entre organização e jogos de regras, utilizamos o conceito da autora de que a linguagem é utilizada para transmitir e internalizar regras. Temos então a noção de que as regras de uma organização são transmitidas através da linguagem e passam a fazer parte das imagens mentais do indivíduo. Em outras palavras, ao fazer parte de uma organização, o sujeito recebe uma série de diretrizes do que deve e do que não deve fazer e isso é internalizado em forma de imagens mentais, as quais tomam parte no processo de promoção de saúde e autoregulação (OLIVEIRA, 2004).
A partir desse enfoque, pode-se inferir que o modo como essas regras são transmitidas, sua consistência e sua efetivação no meio organizacional interferem na saúde das pessoas que dela fazem parte. Regras claras e possíveis de serem postas em prática podem auxiliar no desempenho da equipe de trabalho viabilizar a resolução de problemas de forma criativa e estruturada, utilizando categorização, seriação e seleção. A equipe pode, através de regras claras e bem comunicadas, categorizar e seriar seus objetivos e, assim, selecionar qual deverá ser considerado como prioridade e qual poderá ser deixado em segundo plano. Poderá também utilizar a realidade e a fantasia para a resolução de problemas, utilizar a cognição e a emoção, e isso de forma integrada (OLIVEIRA, 2004).
Regras e promoção de saúde nas organizações
A cultura de uma empresa representa um conjunto de evidências compartilhadas na organização ou o conjunto "das regras do jogo" informais que são vivenciadas pelas pessoas dentro da mesma, desse modo, Motta (l991) define cultura como o conjunto de idéias, crenças, conhecimentos, costumes, hábitos, aptidões, valores, símbolos e ritos que caracterizam a organização.
Ao pensar sobre as regras e a forma como elas são transmitidas nas organizações, não podemos perder de vista de que essas regras, diferentemente do que costuma acontecer em jogos, não são estáticas, mas sofrem alterações ao longo do tempo. Algumas dessas mudanças podem causar desequilíbrio no indivíduo e até mesmo na equipe, apresentando a estes a necessidade de adaptar-se para tornar a um estado de equilíbrio.
As demissões, contratações, aposentadorias, promoções, junções e separações de setores, mudanças de objetivos, mudanças de horários e dias de trabalho, etc, são alguns exemplos de situações de mudanças de regras na organização.
Todas essas mudanças significam que os integrantes da organização precisarão se adaptar a novas formas de organização e estruturação do trabalho, sendo que pessoas diferentes tendem a sentir maior desequilíbrio em situações diferentes. Há casos em que a mudança de regras dentro da organização pode adoecer alguns de seus integrantes e é nesse sentido que a organização pode ser promotora da saúde. As regras na organização mudam e a comunicação dessas mudanças influencia no processo de adaptação de seus integrantes. O uso da linguagem de emissão e de recepção são primordiais para a comunicação dessas mudanças de regras.
A clareza e a espontaneidade da comunicação possibilitam a desmistificação sobre as mudanças de regras e facilita ao indivíduo a retomada do estado de equilíbrio e a aprendizagem com a nova situação com qual se deparou, promovendo a saúde ao possibilitar um novo estado de equilíbrio (OLIVEIRA, 2004; RIBEIRO, 1998).
Mas não são somente as mudanças de regras que podem adoecer, a cristalização dessas regras pode torná-las inadequadas para o momento real vivido pela organização e, novamente, o processo da promoção de saúde vê-se prejudicado. Exemplos disto são situações em que uma determinada forma de trabalhar bem sucedida no passado é mantida no momento atual, sem, no entanto, ter a mesma eficácia de outrora, regras antigas são mantidas apesar de sua pouca eficiência e causam conflitos de desequilíbrio na equipe e em seus integrantes. Atrapalham o processo de equilibração e promoção de saúde (RIBEIRO, 1998).
É esse o momento em que a linguagem pode auxiliar na percepção do momento vivido pela organização e no qual podem ser traçadas mudanças viáveis para a resolução desse problema vivido pela organização (OLIVEIRA, 2004).
Considerações finais
A divulgação clara dos fatores desencadeantes de doenças e a informação são de suma importância quando se fala em promoção da saúde dentro de uma organização, mas não se pode esquecer, porém, que para que haja um desenvolvimento de políticas de promoção de saúde, sejam dentro ou fora das organizações, é muito importante que haja sempre o diálogo e a troca de idéias entre indivíduos e grupos de leigos e profissionais, visando assim estabelecer os mecanismos políticos necessários para garantir oportunidades de expressão e desenvolvimento do interesse público na saúde (WHO, 1984, p.22 tradução livre).
Não houve a pretensão de se esgotar o assunto no presente trabalho conforme mencionado anteriormente, mas discutir brevemente os conceitos de promoção de saúde, regras e linguagem no contexto organizacional, compreendendo que a organização pode ser promotora de saúde à medida que faz uso da linguagem para intermediar a estruturação e organização de suas regras.
Referências
BASÍLIO, M.A.: SIQUEIRA, M.M.M. As relações entre programas organizacionais de promoção da saúde e bem-estar no trabalho. Revista de Psicologia Organizacional e do Trabalho (submetido), 2006
BUSS, P. M. Uma introdução ao conceito de promoção de saúde in CZERESNIA, D.; FREITAS, C. M. (orgs) Promoção da saúde: conceitos, reflexões, tendências. Rio de Janeiro: Fiocruz, p. 15 – 37, 2003
CAPLAN, G. Princípios de psiquiatria preventiva. Trad. Álvaro Cabral. Zahar Editores: Rio de Janeiro, 1988.
DAMÁSIO, A. O mistério da consciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2000
MINISTÉRIO DA SAÚDE – SECRETARIA DE POLÍTICAS DA SAÚDE, Disponível em: http://dtr2001.saude.gov.br/sps/areastecnicas/promocao/o%20que%20%E9.htm Acesso em: 20 maio 2004
MOTTA, P. R., Gestão Contemporânea. A Ciência e a Arte de Ser Dirigente. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1991
OLIVEIRA, V. B. Jogos de regras e a resolução de problemas. Petrópolis: Editora Vozes,. 2 ed., 2004
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS). Preamble of the Constitution of the World Health Organization. In: Official Records of the World Health Organization, 2, p. 100. Geneva: World Health Organization, 1948
ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD. Carta de Ottawa para la promoción de la salud. In: ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD. Promoción de la salud: uma antologia. Washington: OPAS, 1996. p.367-72.
PEREIRA, I. M. T. B., PENTEADO, R. Z., MARCELO, V. C. Promoção de saúde e educação em saúde: uma parceria saudável. O mundo da saúde, ano 24, v.24, n.1, p.39-44, 2000
RIBEIRO, J. L. P. Psicologia e saúde. Lisboa, Ispa, 1998
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Discussion document on the concept and principles. In: Health promotion: concepts and principles, a selection of papers presented at Working Group on Concepts and Principles. Copenhagen: Regional Office for Europe, p.20, 1984
Sobre o Autor
Mestre em Psicologia da Saúde, Pós Graduado em Gestão de RH e Psicologia Organizacional e Bacharel em Administração de Empresas. Professor universitário nos cursos de Gestão de RH, Gestão Ambiental e Gestão de Segurança Privada na Universidade Cidade de São Paulo (UNICID). Atuei por 15 anos em Recursos Humanos na Ford Motor Company Brasil Ltda de onde me desliguei em 2007. Tenho experiência nas áreas de Recursos Humanos e Psicologia Organizacional. Contato:p.eduardo.ribeiro@uol.com.br
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